De fato, os 10 dias em Djiu de Galinha fizeram um grande marco em minha vida. No último dia do acampamento roubaram minha mochila com documento (que me dá o direito de andar por Guiné, sem que eu seja tida como ilegal no país), dinheiro e roupas. Tudo começou quando a Marcela acordou por volta das 4h e 55min. Ela olhou para trás, por cima de seus ombros e viu um homem quase que em cima de nossos colchões que estavam lado a lado. Meio sonolenta ela disse “quem é?”, mas o homem misterioso apenas se virou, sem emitir som e saiu do quarto. Após essa cena de suspense ela me acordou dizendo que tinha um homem olhando para nós, quase que em cima de nossos colchões. Achei estranho e confesso ter pensado que a Marcela estava viajando. Ela estava com medo e me fez achar que pudera ser um demônio, afinal estávamos em uma ilha, no meio de uma tabanca onde as pessoas só sabem fazer cerimônias e mais cerimônias. Além do mais, na noite anterior havia acontecido um evangelismo onde fizemos uma peça em que retratávamos satanás, os demônios e o inferno. Sem saber o que dizer ou fazer resolvi acordar a Rose que estava do meu outro lado.
Após acordar a Rose, o homem voltou no quarto, vimos seu braço e perna. Ele era alto, negro, estava sem camisa e vestia um jeans dobrado até o joelho. Antes mesmo que ele entrasse no quarto eu gritei “Abo!”, que seria como um “você aí!” e imediatamente ele se afastou da porta, mas ficou olhando de longe. Ainda estava escuro, o sol não tinha nascido, e o homem era negro, não conseguimos ver seu rosto. Logo após meu grito, Rose correu em direção à porta e eu fui atrás, mas ele sumiu do nada. Não tinha para onde ele fugir ou lugar para se esconder. Ele simplesmente sumiu.
Os homens do acampamento estavam em barracas do outro lado do campo, e por estar escuro, ninguém queria atravessá-lo. Foi então que uma das jovens que participava do acampamento acordou e foi chamar os homens. Eles vieram, contamos o que acontecera e eles ficaram o resto da madrugada até de manhã vigiando o acampamento.
Ao entrar no quarto para dormir após tudo que ocorrera, olhei para meus pertences e vi minha mala de higiene pessoal revirada, mas estava tudo lá dentro. Pensei “este homem mexeu nas minhas coisas”, mas não dei falta de nada. Ao acordar novamente às 7h fui trocar de roupa e foi então que dei falta da mochila. Mas era tarde demais.
Todo acampamento ficou sabendo da história e as pessoas vinham falar comigo, diziam “missionária, não fique triste”, e sinceramente não fiquei triste. Coisas são coisas. Acho que na hora eu não consegui ter noção do que tinha acontecido. Quase não lamentei o roubo, pelo contrário, eu só sabia brincar com toda história e repetir as cenas de maneira engraçada.
Foi então que uma amiga guineense, Léia, achou algumas roupas jogadas no chão, entre lixo e mato, atrás dos banheiros. Peguei as roupas, as coloquei em um saco, o amarrei e tentei não tocar mais no assunto.
Ao chegar à praia, foi uma luta. A canoa estava pronta para sair, mas as pessoas que já tinham embarcado tiveram de descer, pois nessa hora iria começar a revista das malas para saber se encontravam algo nas malas do povo. Mas a missão não teve sucesso. Sabe o que encontraram? Nada.
Surgiram boatos de que o homem que roubou minha mochila é o mesmo homem que já roubou muitas outras pessoas em Bissau. É um cara que mora na ilha ao lado, e que veio na canoa conosco. Ele foi passar o feriado da páscoa em Djiu de Galinha como nós. Ele já foi preso várias vezes, mas sempre desaparece da prisão. Dizem que ele tem pacto com o diabo e que tem o poder de sumir na hora que quer. Pois é, sei que é difícil de acreditar. Mas eu acredito porque ele sumiu na hora em que eu e Rose fomos atrás dele. Não o vi sumir na minha frente, mas garanto que não tinha como ele fugir de meus olhos. Ele só pode ter sumido mesmo. (AEA) Assim É a África.
Agora, vê se pode... Eu sou do Rio de Janeiro e nunca fui roubada. Saí do Rio para ser roubada aqui, por um Bijagó, no meio de uma Tabanca africana em Djiiu de Galinha. O que me resta é ter história pra contar.
PS: Sobre o documento, foi fácil. Ao voltar da ilha fiquei uns quatro dias andando sem o documento, mas a Rose ligou para o Domingos, que trabalha na embaixada brasileira e consegui outro documento sem nenhuma complicação. Deus é bom!
Comentários
Beijos
Fica na Paz do Senhor
Deus é fiel. Nessa o cão não teve vitória.
Abç.
Graça e Paz.
Te amo Negáh!!!
Rsrsr Acho que não estava errada em te chamar de negAhh...rsrsr
BjãO!
Cynthia Mtz.