A observação é uma das minhas características. Todo mundo que está perto de mim sabe que muitas vezes eu fico calada só ouvindo e observando as coisas. Aqui em Bissau não é diferente! Desde que cheguei a esse país eu observo tudo: as pessoas, o trânsito, a igreja, os missionários, os vizinhos, as ruas... Enfim, tudo!
Outra característica minha é que eu sou justiceira, isso é bom e ruim. Eu gosto de justiça, gosto de fazer justiça e aqui eu quero que as coisas sejam justas e na maioria das vezes não são.
Porque quando eu saio na rua eu vejo de um lado casas maravilhosas e do outro eu vejo casas caindo aos pedaços. Vejo crianças sujas soltas na rua e vejo brancos tomando cerveja e comendo pizza em restaurantes que provavelmente muitos guineenses nunca pisarão o pé. Vejo hotéis de luxo e vejo casas de um cômodo para famílias de 10 pessoas. Vejo restaurantes chick’s e guineenses fazendo fogo no chão da rua para cozinhar. Vejo grandes carros, Mercedes, BMW e outros que nem sei falar o nome e vejo gente andando quilômetros para chegar a uma escola. Nossas casas têm luz, água encanada e tem muita gente que não sabe nem o que é uma televisão.
Não estamos no século I, não estamos na idade da pedra, estamos em um país paradoxal, evolui de um lado e estaciona do outro.
Nós estamos tentando, falamos com as pessoas, incentivamos o estudo porque entendemos que a educação pode mudar a realidade.
Tenho a consciência de que estrangeiro não pode ser o herói da nação. Queremos guineenses lutando e transformando a historia.
Eu só fico triste diante dessa realidade. Triste porque sei que eu vivo esse paradoxo, vivo dos dois lados. Minha casa tem água e luz (na maioria das vezes falta, mas tem...rs), tenho internet, vou a restaurantes, compro em mercados. Eu sou branca! Mesmo missionária minha vida ainda é melhor do que a da maioria aqui. Eu só bebo água mineral! Mas, quando vou para a tabanca, sento no chão, como com a mão, tiro água do poço, viro quase uma guineense.
No fundo eu sei que minha realidade é diferente demais e eles não podem entrar no meu mundo. Eles não dão conta. Mas, eu tenho que continuar vivendo assim... Eu sou brasileira, minha cultura é a do Brasil. Estou servindo a esse povo e tenho tentado dar o meu melhor... Enquanto isso eu continuo vendo e vivendo esse paradoxo chamado Guiné Bissau.
Por Rebeca Marinho Simões (Equipe CTMDT Guiné-Bissau 2011)
Por Rebeca Marinho Simões (Equipe CTMDT Guiné-Bissau 2011)
Comentários